Ainda precisamos falar sobre violência contra mulher

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No Brasil, a população feminina ultrapassou 103 milhões de mulheres em 2014. Uma em cada cinco, considera já ter sofrido pelo menos uma vez algum tipo de violência por parte de algum homem, conhecido ou desconhecido” (Fundação Perseu Abramo, 2010).

Do total de atendimentos realizados pelo Ligue 180 – a Central de Atendimento à Mulher no 1º semestre de 2016, 12,23% (67.962) corresponderam a relatos de violência. Entre esses relatos, 51,06% corresponderam à violência física; 31,10%, violência psicológica; 6,51%, violência moral; 4,86%, cárcere privado; 4,30%, violência sexual; 1,93%, violência patrimonial; e 0,24%, tráfico de pessoas. Veja aqui.

Vemos no noticiário, lemos no Facebook mas nunca imaginamos que esse tipo de coisa vai acontecer com a gente, até acontecer. Já levei namorado pra enfaixar a mão no hospital por socar a parede segundo ele pra não me socar. Já fui xingada publicamente, humilhada por perder uma carona de uma viagem que faríamos juntos e tive que passar o aniversário de namoro fingindo estar feliz quando na verdade só queria ir embora.

Mas era “só” uma agressão verbal, aí não tem problema. Ele só estava nervoso e tinha um comportamento explosivo. Jamais me bateria, a gente pensa.

As pessoas nunca entendem porque nos sujeitamos a um relacionamento abusivo, acontece que o agressor nem sempre é aquela pessoa horrível, às vezes ele é só o namorado legal, o melhor amigo que escuta e a única pessoa com quem conseguimos nos abrir. Ainda assim, a gente pensa que violência física é algo que só acontece com os outros, até acontecer com você.

agressão física

Neste último sábado (02/06), estava em um aniversário quando um vizinho muito bêbado começou a me assediar, pedi licença e me retirei de perto como qualquer pessoa incomodada faria, afinal de contas, os incomodados que se mudem, né?

Meia hora depois ele volta, em uma tentativa de afastá-lo dei um empurrão, como esperado já que ele estava quase me beijando, foi aí que levei o primeiro soco no braço. Como uma criança contrariada gritou, jogou a bebida longe, esfregou o dedo médio na minha cara e quando fui tentar tirar levei outro soco no braço.

Fiquei sem ação, não acreditava que aquilo estava acontecendo comigo, e que alguns vizinhos um grupo de homens viram e como se estivessem em um show assistiram silenciosamente sem fazer absolutamente nada. Fiquei com medo de tentar passar e apanhar de novo, até finalmente tirarem ele de perto de mim. Só consegui chorar.

O pior não foi o soco, não foi a humilhação. O pior foi ouvir que o “cara gente boa do prédio” só estava bêbado. Como se isso justificasse o comportamento, como se estivessem passando o pano e diminuindo a violência.

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Reprodução do Facebook

A violência contra a mulher é uma das formas de violação dos direitos humanos mais praticadas e menos reconhecidas, não estando restrita a uma cultura, classe social, ou a grupos específicos dentro de uma sociedade.

Infelizmente esse tipo de coisa ainda é mais frequente do que se imagina. Marta Coelho, 27 anos, fisioterapeuta viveu um verdadeiro inferno, conheceu um cara no Tinder que se tornou possessivo e controlador.

Começou a criar conflitos para ver o meu telemóvel e eu na altura estava muito estupida, uma baixa auto-estima tremenda, devido ao problema de pele, que infelizmente atacava-me a cara e ficava super evidente. Com isso juntou-se, contas de e-mail, passes de redes sociais, a minha auto-estima já não estava famosa, ele pressentia e ainda piorava até que um dia, não fiz um capricho dele, que era de fazer de taxista e fui sair com um amigo meu que não via a muito tempo. Ele descobriu, gritou comigo, deu me um estalo e eu terminei tudo. Tivemos 4 dias separados e ele veio atrás de mim no trabalho. Discutimos, ele chorou bastante, que ia ficar na rua, e que não tinha pra onde ir e eu tive pena dele e disse para ele passar a noite em casa e ir no dia a seguir. Foi o pior que fiz. Praticamente me sequestrou em casa. Bateu-me muito, ameaçava me com uma faca, e acusava me de andar com os meus colegas de trabalho, porque tinha mensagens normais deles, para vir ao café na pausa, que é mesmo colado ao serviço. Acusava-me de andar com esse meu amigo do jantar. Espancou-me até eu admitir o que ele queria ouvir. 

Na maioria dos casos, a violência não acontece logo de cara mas, gradativamente, vai ganhando espaço através de humilhações, críticas, insultos, pequenas discussões, cobranças e reclamações a respeito dos afazeres do dia-a-dia e muitas vezes agrava-se com o ciúme doentio, tornando inviável qualquer atividade externa ao lar.

Foi o que aconteceu com Luanna Passos, 23 anos, que viveu 4 longos anos de relacionamento abusivo.

 Tudo começou com aquelas velhas frases, “coloca outra roupa”, “esses seu amigos não me agradam”, “você passa muito tempo com sua família”, parece óbvio, em pouco tempo estava sem amigos, distante da família e com um cara que todas as noites me fazia chorar, até mesmo quando ele tinha feito algo de errado, já havia tido tantos términos que ninguém levava aquela dor a sério, ele conseguiu mexer com meu psicológico, social, emocional a sensação é que eu não tinha mais ninguém, exceto ele. Em março de 2016 descobri minha gravidez e tudo que já era ruim ficou pior, estava com inicio de depressão, a gestação não me dava nem uma alegria e eu só chorava dia e noite. E ele indiferente a tudo sempre bêbado. Eis que um dia em uma discussão ele me bateu, chutes, socos, jogou o celular em min, tentou chutar o máximo possível minha barriga, me defendi o que com quatro meses de gestação dava, me esquivava, abaixava, peguei o que podia e dirigi ate a casa da minha mãe, foi a pior sensação da minha vida. Hoje com um bebe de cinco meses tento tirar o melhor deste caso, que foi ter conseguido me libertar.
Quebrar o ciclo vicioso da violência doméstica não é uma tarefa fácil, como muitas pessoas gostam de “bostejar”. É um processo, onde é preciso ultrapassar muitas barreiras como medo e a vergonha pra sair do isolamento.
Quando um homem bate em uma mulher, ele faz muito mais do que espancar seu corpo. Ele destrói seus sonhos, sua dignidade e sua auto-estima, predispondo-a a inúmeras patologias psiquiátricas e psicológicas.
Malu Lopes, 27 anos, é gerente de marketing. O relacionamento abusivo lhe rendeu síndrome do pânico e marcas que apesar do tempo ela vai levar pro resto da vida.
Começa com um tapa na cara e aos poucos vai evoluindo. Um empurrão, um soco, enforcamento, começa a jogar objetos, estupro (que a gente não acha que é, afinal é meu namorado). Chegamos num nível dele me espancar com o capacete de moto, me derrubar no chão e me arrastar no chão pelos cabelos pela casa. Aí a gente começa a finalmente perceber que está sendo violentada, mas é um processo muito lento. Por mais óbvio que seja, é difícil entender e quando você entende, já está totalmente envolvida e não sabe como sair disso. Quando eu tentava terminar, ele dizia que me mataria. Me lembrava que tinha polícia na família e pra conseguir uma arma era fácil. Me dizia que já matou um cara espancado. Ai vai dando cada vez mais medo, né.. é muito difícil principalmente porque o seu agressor é também o seu amor, o seu companheiro. Não é como se você fosse agredida 24 horas por dia, ele ainda é um namorado que age como … Um namorado! No fim das contas eu tava tão acabada é morta por dentro, não via mais nenhuma chance de ter uma vida normal de novo e terminei e esperei ele cumprir a promessa de me matar. Eu já não tinha mais nada a perder mesmo. Não tive apoio de absolutamente ninguém. As poucas ‘amigas’ q eu tinha viraram as costas pra mim. Uma delas, a gente se afastou mas eu continuava procurando ela pra desabafar sobre o que acontecia, e ela, acho que não acreditava, acabei descobrindo que ela procurava meu namorado pra contar as coisas que eu desabafava e falava mal de mim pra ele ficar ainda mais nervoso comigo. 
No Brasil, estima-se que cinco mulheres são espancadas a cada 2 minutos; o parceiro (marido, namorado ou ex) é o responsável por mais de 80% dos casos reportados, segundo a pesquisa Mulheres Brasileiras nos Espaços Público e Privado (FPA/Sesc, 2010).
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Relato enviado anonimamente

A Lei Maria da Penha classifica os tipos de abuso contra a mulher nas seguintes categorias: violência patrimonial, violência sexual, violência física, violência moral e violência psicológica. A maioria dos casos de agressão não é denunciado por vários fatores, ameaças, medo, vergonha do escândalo e como isso vai impactar a família.

É preciso não se calar diante da violência praticada, nem sempre a vítima é a única que pode tomar uma atitude. Enquanto houverem machos normalizando agressões, justificando agressores teremos um longo caminho pela frente.

… O abuso não é culpa da vítima, violência é crime!

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